ORGÂNICO, VERMELHO E DO ROCK
Carlos Lopes (Mustang)
A banda carioca Mustang está lançando o terceiro álbum da carreira, "Oxymoro", e conversamos com Carlos Lopes (ex-Dorsal Atlântica) pra todos conhecerem melhor a história da banda.
Carlos, fale um pouco sobre sua trajetória antes do Mustang.
Durante vinte anos fundei e conduzi a Dorsal Atlântica, uma banda de metal que tem mais história do que é possível descrever aqui. Para isso, escrevi o livro "Guerrilha!" que conta a história da Dorsal e da cena, que são coisas indissociáveis. Cansado de muita coisa, encerrei as atividades da Dorsal e fundei dois novos grupos, Mustang e a Usina Le Blond, que existem há alguns anos. A primeira com dois CDs e a segunda com o terceiro a caminho.
Após 2 anos, estão lançando "Oxymoro" pela Monstro Discos. Qual a principal diferença deste trabalho comparando com o anterior "Rock n'Roll Junk Food"?
Apesar de ambos terem sido gravados ao vivo, a grande diferença é que o primeiro CD "Rock n'Roll Junk Food" é um disco de riffs, mais do que de canções. No "Oxymoro" explorei o máximo que pude melodicamente, sem me obrigar a agradar, apenas escrever boa música. Toquei slide pela primeira vez na vida, soltei a voz do grave ao agudo sem convencionalismos. Durante uma entrevista que fiz com o guitarrista Wayne Kramer, do MC5, ele usou o termo OXYMORO para simbolizar uma idéia, que insistentemente repetida reforça um conceito aparentemente antagônico. Como a entrevista foi feita na época da gravação, achei que o nome OXYMORO reforçava meu idealismo e meus próprios conceitos.
Em quanto tempo foram feitas as gravações deste terceiro disco?
OXYMORO foi gravado durante quatro meses em 2003, juntamente com o terceiro CD da nossa outra banda USINA LE BLOND, esses lançamentos todos em apenas três anos. A nossa sonoridade é "orgânica" ou "crua", ou ambos, apesar das harmonias e dos arranjos mais intrincados do que o comum. O que fizemos foi recuperar uma simplicidade técnica, que havia nos discos antigos gravados com menos recursos, mas com maior paixão. A gravação foi pluge-toque-microfone-grave. Nossa música é improvisada e orgânica demais, para que seja gravada em canais separados, o que caparia nossa espontaneidade. É bom correr riscos, deixar a música te levar para onde quer que ela queira ir. Também, como uma questão estética, não acredito mais em discos gravados em canais separados ou como se faz em particularmente em quase todos os discos hoje, com recursos de computador "para acertar" o que quer que seja. Estou crescendo muito como músico e compositor. Sei que fazemos um som diferente de tudo o que se faz no Brasil e isso me deixa extremamente satisfeito. Som e estética.
Em qual estúdio fizeram as gravações e quem mais se envolveu com a produção?
No estúdio Staccato no Rio de Janeiro. Gravamos em ADAT para ter som de fita e mixamos no Cubase. Fui o produtor musical e executivo. O disco representa um momento tão mágico em nossas vidas, que até uma entidade extra-corpórea se manifestou no estúdio. Era o grande Rotieh Ortseam, um desconhecido maestro que vive apenas no plano espiritual e que veio até nós, nos honrando com arranjos de indubitável beleza e criatividade, simplesmente executados na hora, sem ensaios. Rotieh incorporou em um corpo andante que tocou todos os teclados imediatamente. Ficamos aparvalhados. Foi um verdadeiro intercâmbio divino entre os dois planos.
É sensacional a volta pelo rock puro que vocês fazem neste álbum. Será possível um lançamento dele em vinil? Ia ser show hein!
Por enquanto isso não está em nossos planos. O primeiro CD tem uma versão em picture disc e outra em vinil vermelho, para os apreciadores do formato LP.
E as letras? Como elas são criadas e de onde surgem as inspirações?
A inspiração vem do dia-a-dia, é mais do que o suficiente. Posso ser estimulado a escrever por uma frase ouvida ao longe, um comportamento, uma leitura, um programa de TV, etc. As letras funcionam como mini-crônicas, onde posso comentar o mundo silenciosamente. O "ruidosamente" surge quando adicionamos a música :-) A irreverência surge como instrumento de defesa contra a morosidade, a letargia e a falta de inteligência. Falo de tudo nesse trabalho, sobre vida extraterrestre, hipocrisia religiosa, mas principalmente sobre amores. E o que é mais importante do que o amor? Não me refiro apenas a sexo, mas a toda forma de amor em sua forma mais plena. Escolhi o amor como tema principal do OXYMORO, porque é esse sentimento que me dá força para continuar e me manter vivo. Hoje sou o somatório de tudo o que vi, vivi e presenciei. O passado passou, o presente é, e o futuro será o que fizermos dele hoje. Amor, amor, amor. Pelo menos dez composições têm o amor como tema principal, cantando sobre as alegrias, dores, encontros e desencontros de toda relação.
Ao ouvir o CD percebi que a maior importância é de fazer o que gosta e se divertir. Isso foge bastante do que as bandas fazem ultimamente, procurando agradar gravadoras, rádios, etc. Quais as maiores dificuldades enfrentam por não seguirem esta "regra", principalmente em relação à mídia?
Eu costumava chamar o Mustang de punk and roll, mas hoje em dia expandi tanto esse conceito que apenas sei que "nada sei". Quando nos auto rotulamos a tendência é que ninguém entenda nada mesmo. Compor é como uma incorporação, eu me deixo levar. Apenas sei que uma canção deve sair desse processo, nada de ficar me obrigando a fazer isso ou aquilo. Não posso julgar quem quer que seja, vivo conforme minha filosofia de vida. Se gostam de mim como sou, tudo bem. Se a mídia gostar de mim como sou, e me deixar livre para escrever o que quiser, seríamos parceiros.
O que diria para um jovem músico que estivesse começando hoje?
A juventude tem a impetuosidade, mas também a imaturidade, dois lados da mesma moeda. Quando essas duas coisas são empregadas devidamente (o que só se sabe quando se faz uso, quando se erra e acerta) as portas se abrem, mesmo com dificuldades. Estudar é importante, mas repetir fórmulas é patético, só você sabe o que é o ideal pra você, e isso pressupõe um ponto de vista. Sua música será reflexo dessa forma de pensar. Vivemos em um País injusto, onde o capital econômico influi na ascensão de um artista e de um político. As pessoas estão hipnotizadas por essa força que é o Ego. O artista tem que ser o diferencial.
Para o pessoal que ainda não conhece o grupo, faça um resumo de quando surgiu, em qual cidade, influências e formação.
Fundei os dois grupos no Rio de Janeiro após o fim da minha primeira banda, a Dorsal Atlântica. O Mustang e a Usina Le Blond surgiram em 2000, como passatempos para me livrar de estresses e cobranças. Simplesmente fui compondo e ensaiando. A oportunidade de gravar acabou surgindo e desde então as bandas têm vida própria. A formação fixa das duas bandas é Carlos Lopes na guitarra/vocal e Américo Mortágua na bateria. O som da banda pode ser entendido como uma mistura de todas as bandas que cresci escutando oriundas dos 60 e 70. Grupos de rock, punk e metal e que possuíam alma em suas músicas, algo que me estimula até hoje e que me arrepia. Bandas como MC5, Stooges, Rolling Stones, Beatles, The Who, The Jam, Thin Lizzy, UFO, até cineastas brasileiros como Glauber, Sganzerla e Bressane influenciam o som e a postura do Mustang.
Como é que fazem pra conciliar tudo isso?
Atualmente só nos dedicamos as duas bandas. Conciliar sempre tem sido difícil, não importa a fase, mas se você quer muito algo, se desdobra em mil e consegue. Se fosse te contar as histórias de outros músicos que sempre tinham uma desculpa, uma razão, um motivo para tudo e hoje já encerraram suas carreiras musicais...
E os estilos de cada banda? Qual é a proposta de cada um?
O Mustang é da ala do rock and roll, daquele mesmo que eu escutava quando tinha 16 anos. A Usina era o som que eu ouvia por "tabela" vindo das rádios (James Brown) e da vitrola dos meus pais (Simonal, Jorge Ben, Roberto Carlos). Depois compreendi que as 2 bandas eram uma forma de retornar a um período paradisíaco; às origens, à infância, à inocência. Me purifiquei com discos que nem tinha cabeça para absorver direito, quando criança. Voltei feliz da vida aos meus Beatles, Stones, Who, Grand Funk, Secos e Molhados, Mutantes, foi um negócio louco. Terapia gratuita sem intermediários.
Hoje em dia já conseguem viver só da música?
Ainda não, mas no meu caso eu me dedico à música quase integralmente, pois sou jornalista musical, produtor e músico. Nunca foi fácil, mas o mundo está aí para quem quer moleza.
Estão fazendo shows com o Mustang?
Sim, estamos aguardando que o disco seja mais divulgado para fazermos as primeiras datas, mas em Novembro desse ano vamos fazer o lançamento do OXYMORO em alto estilo. A banda assume uma postura, vermelha de esquerda, e glam de contestação, sem violência física, mas sim dispondo idéias e possibilidades dentro desse mundo homofóbico do rock.
Conte como é a performance do grupo ao vivo: figurino, cenário, interatividade, etc.
O vermelho das nossas roupas é em homenagem aos New York Dolls (Red Patent Leather Tour - a fase "comunista" dos Dolls). Eu os assisti pela primeira vez, embasbacado, no programa Rock Concert na Globo nos anos 70, no show do Don Krischner no qual tocaram ao vivo. Eu pirei. O pequeno detalhe da roupa vermelha foi uma das causas do fim deles, mas passados 30 anos é um dos motivos do nosso nascimento, estético/musical. A estrela dourada que uso na roupa vermelha representa o Homem Vitruviano de Da Vinci; o PHI; o 1,618. O show é suor, entrega, volume, paixão, sutileza, espiritualidade, carnalidade, carnaval, igreja e ritual.
Como o público reage ao ver o grupo no palco?
As caras da platéia são curiosas. Às vezes parecem ter medo de mim, outras riem, amam ou se chocam. Nada é artificial, ou gratuito. Não estou nessa para agredir, mas para dar meu amor para quem estiver de braços abertos. Apresento um personagem, que toca uma música especial. Como isso não existe mais, então deve ser um choque mesmo. Ninguém sai impune de um show desses. Precisa ter coração e cérebro.
O set list das apresentações também conta com covers?
Não, mas nunca se sabe, dependendo da oportunidade. Tenho uma máxima antiga de não tocar covers, porque associei quem toca cover com alguém que tem um repertório próprio desinspirado ou com a falta de vontade de mostrar o próprio trabalho, com medo da reação alheia, ou pior, com a apatia alheia.
Vocês também lançaram um VHS com show ao vivo, vídeo clipe e entrevistas. Qual show é veiculado neste material e como tem sido a tiragem e aceitação?
De início seria um DVD lançado com todas as bandas que se apresentaram no 8º Goiânia Noise Festival em 2002, mas como o projeto não foi adiante e cada banda era detentora da gravação original do show, decidimos lançar em VHs por não termos, ainda, como editar em DVD. É o melhor festival de rock do país e, além disso, organizado pela gravadora e produtora Monstro, que lançou o CD OXYMORO. Encontrei muitas simpatias e afinidades em Goiânia. O resultado do show do Mustang feito com sangue, suor e coração (além das roupas vermelhas) foi um convite para ingressar no elenco do selo Monstro Discos. O VHS do Mustang surpreende quem espera que eu faça no palco algo parecido com o que fiz quase minha vida toda... É muito "pior". A minha entrega ao vivo é tanta que chego a me machucar e saio suado mesmo, não é de mentirinha não, é entrega de verdade.
E quais serão as próximas novidades do Mustang?
As mesmas de sempre: divulgar nossa forma de pensar e apresentar opções à obviedade.
A banda tem feito contatos no exterior ou ainda não pensaram nisso? Como anda a divulgação aqui no Brasil?
A divulgação está muito boa, temos os CDs distribuídos em todos os grandes magazines do país; entrevistas estão sendo publicadas nos mais diversos veículos e os convites estão surgindo. A banda está despertando um interesse muito grande por diversos motivos, e o maior deles é a coragem e claro, a qualidade. A gravadora queria editar o OXYMORO em inglês, mas eu fiz questão de lançá-lo em português, pois meu interesse é ser compreendido em nossa língua, expressar meus pontos de vista sobre a nossa sociedade para quem participa dela, e não para quem vive com a cabeça em Nova Iorque. Sou apaixonado por esse disco, que considero, honestamente, meu melhor trabalho. Não entendo nossa língua como de difícil assimilação ou brega. Assim posso falar com ironia e rir da minha própria cara. Para que pudéssemos entrar em um acordo, banda e selo, escolhi algumas faixas em inglês para que os correspondentes do estrangeiro e as gravadoras pudessem ouvir o trabalho, apesar de muitos "duplos sentidos" se perderem na tradução.
Valeuzão pela entrevista e pode deixar seu recado aos leitores do site.
Amo todos vocês.
* por Gisele Santos
A banda carioca Mustang está lançando o terceiro álbum da carreira, "Oxymoro", e conversamos com Carlos Lopes (ex-Dorsal Atlântica) pra todos conhecerem melhor a história da banda.
Carlos, fale um pouco sobre sua trajetória antes do Mustang.
Durante vinte anos fundei e conduzi a Dorsal Atlântica, uma banda de metal que tem mais história do que é possível descrever aqui. Para isso, escrevi o livro "Guerrilha!" que conta a história da Dorsal e da cena, que são coisas indissociáveis. Cansado de muita coisa, encerrei as atividades da Dorsal e fundei dois novos grupos, Mustang e a Usina Le Blond, que existem há alguns anos. A primeira com dois CDs e a segunda com o terceiro a caminho.
Após 2 anos, estão lançando "Oxymoro" pela Monstro Discos. Qual a principal diferença deste trabalho comparando com o anterior "Rock n'Roll Junk Food"?
Apesar de ambos terem sido gravados ao vivo, a grande diferença é que o primeiro CD "Rock n'Roll Junk Food" é um disco de riffs, mais do que de canções. No "Oxymoro" explorei o máximo que pude melodicamente, sem me obrigar a agradar, apenas escrever boa música. Toquei slide pela primeira vez na vida, soltei a voz do grave ao agudo sem convencionalismos. Durante uma entrevista que fiz com o guitarrista Wayne Kramer, do MC5, ele usou o termo OXYMORO para simbolizar uma idéia, que insistentemente repetida reforça um conceito aparentemente antagônico. Como a entrevista foi feita na época da gravação, achei que o nome OXYMORO reforçava meu idealismo e meus próprios conceitos.
Em quanto tempo foram feitas as gravações deste terceiro disco?
OXYMORO foi gravado durante quatro meses em 2003, juntamente com o terceiro CD da nossa outra banda USINA LE BLOND, esses lançamentos todos em apenas três anos. A nossa sonoridade é "orgânica" ou "crua", ou ambos, apesar das harmonias e dos arranjos mais intrincados do que o comum. O que fizemos foi recuperar uma simplicidade técnica, que havia nos discos antigos gravados com menos recursos, mas com maior paixão. A gravação foi pluge-toque-microfone-grave. Nossa música é improvisada e orgânica demais, para que seja gravada em canais separados, o que caparia nossa espontaneidade. É bom correr riscos, deixar a música te levar para onde quer que ela queira ir. Também, como uma questão estética, não acredito mais em discos gravados em canais separados ou como se faz em particularmente em quase todos os discos hoje, com recursos de computador "para acertar" o que quer que seja. Estou crescendo muito como músico e compositor. Sei que fazemos um som diferente de tudo o que se faz no Brasil e isso me deixa extremamente satisfeito. Som e estética.
Em qual estúdio fizeram as gravações e quem mais se envolveu com a produção?
No estúdio Staccato no Rio de Janeiro. Gravamos em ADAT para ter som de fita e mixamos no Cubase. Fui o produtor musical e executivo. O disco representa um momento tão mágico em nossas vidas, que até uma entidade extra-corpórea se manifestou no estúdio. Era o grande Rotieh Ortseam, um desconhecido maestro que vive apenas no plano espiritual e que veio até nós, nos honrando com arranjos de indubitável beleza e criatividade, simplesmente executados na hora, sem ensaios. Rotieh incorporou em um corpo andante que tocou todos os teclados imediatamente. Ficamos aparvalhados. Foi um verdadeiro intercâmbio divino entre os dois planos.
É sensacional a volta pelo rock puro que vocês fazem neste álbum. Será possível um lançamento dele em vinil? Ia ser show hein!
Por enquanto isso não está em nossos planos. O primeiro CD tem uma versão em picture disc e outra em vinil vermelho, para os apreciadores do formato LP.
E as letras? Como elas são criadas e de onde surgem as inspirações?
A inspiração vem do dia-a-dia, é mais do que o suficiente. Posso ser estimulado a escrever por uma frase ouvida ao longe, um comportamento, uma leitura, um programa de TV, etc. As letras funcionam como mini-crônicas, onde posso comentar o mundo silenciosamente. O "ruidosamente" surge quando adicionamos a música :-) A irreverência surge como instrumento de defesa contra a morosidade, a letargia e a falta de inteligência. Falo de tudo nesse trabalho, sobre vida extraterrestre, hipocrisia religiosa, mas principalmente sobre amores. E o que é mais importante do que o amor? Não me refiro apenas a sexo, mas a toda forma de amor em sua forma mais plena. Escolhi o amor como tema principal do OXYMORO, porque é esse sentimento que me dá força para continuar e me manter vivo. Hoje sou o somatório de tudo o que vi, vivi e presenciei. O passado passou, o presente é, e o futuro será o que fizermos dele hoje. Amor, amor, amor. Pelo menos dez composições têm o amor como tema principal, cantando sobre as alegrias, dores, encontros e desencontros de toda relação.
Ao ouvir o CD percebi que a maior importância é de fazer o que gosta e se divertir. Isso foge bastante do que as bandas fazem ultimamente, procurando agradar gravadoras, rádios, etc. Quais as maiores dificuldades enfrentam por não seguirem esta "regra", principalmente em relação à mídia?
Eu costumava chamar o Mustang de punk and roll, mas hoje em dia expandi tanto esse conceito que apenas sei que "nada sei". Quando nos auto rotulamos a tendência é que ninguém entenda nada mesmo. Compor é como uma incorporação, eu me deixo levar. Apenas sei que uma canção deve sair desse processo, nada de ficar me obrigando a fazer isso ou aquilo. Não posso julgar quem quer que seja, vivo conforme minha filosofia de vida. Se gostam de mim como sou, tudo bem. Se a mídia gostar de mim como sou, e me deixar livre para escrever o que quiser, seríamos parceiros.
O que diria para um jovem músico que estivesse começando hoje?
A juventude tem a impetuosidade, mas também a imaturidade, dois lados da mesma moeda. Quando essas duas coisas são empregadas devidamente (o que só se sabe quando se faz uso, quando se erra e acerta) as portas se abrem, mesmo com dificuldades. Estudar é importante, mas repetir fórmulas é patético, só você sabe o que é o ideal pra você, e isso pressupõe um ponto de vista. Sua música será reflexo dessa forma de pensar. Vivemos em um País injusto, onde o capital econômico influi na ascensão de um artista e de um político. As pessoas estão hipnotizadas por essa força que é o Ego. O artista tem que ser o diferencial.
Para o pessoal que ainda não conhece o grupo, faça um resumo de quando surgiu, em qual cidade, influências e formação.
Fundei os dois grupos no Rio de Janeiro após o fim da minha primeira banda, a Dorsal Atlântica. O Mustang e a Usina Le Blond surgiram em 2000, como passatempos para me livrar de estresses e cobranças. Simplesmente fui compondo e ensaiando. A oportunidade de gravar acabou surgindo e desde então as bandas têm vida própria. A formação fixa das duas bandas é Carlos Lopes na guitarra/vocal e Américo Mortágua na bateria. O som da banda pode ser entendido como uma mistura de todas as bandas que cresci escutando oriundas dos 60 e 70. Grupos de rock, punk e metal e que possuíam alma em suas músicas, algo que me estimula até hoje e que me arrepia. Bandas como MC5, Stooges, Rolling Stones, Beatles, The Who, The Jam, Thin Lizzy, UFO, até cineastas brasileiros como Glauber, Sganzerla e Bressane influenciam o som e a postura do Mustang.
Como é que fazem pra conciliar tudo isso?
Atualmente só nos dedicamos as duas bandas. Conciliar sempre tem sido difícil, não importa a fase, mas se você quer muito algo, se desdobra em mil e consegue. Se fosse te contar as histórias de outros músicos que sempre tinham uma desculpa, uma razão, um motivo para tudo e hoje já encerraram suas carreiras musicais...
E os estilos de cada banda? Qual é a proposta de cada um?
O Mustang é da ala do rock and roll, daquele mesmo que eu escutava quando tinha 16 anos. A Usina era o som que eu ouvia por "tabela" vindo das rádios (James Brown) e da vitrola dos meus pais (Simonal, Jorge Ben, Roberto Carlos). Depois compreendi que as 2 bandas eram uma forma de retornar a um período paradisíaco; às origens, à infância, à inocência. Me purifiquei com discos que nem tinha cabeça para absorver direito, quando criança. Voltei feliz da vida aos meus Beatles, Stones, Who, Grand Funk, Secos e Molhados, Mutantes, foi um negócio louco. Terapia gratuita sem intermediários.
Hoje em dia já conseguem viver só da música?
Ainda não, mas no meu caso eu me dedico à música quase integralmente, pois sou jornalista musical, produtor e músico. Nunca foi fácil, mas o mundo está aí para quem quer moleza.
Estão fazendo shows com o Mustang?
Sim, estamos aguardando que o disco seja mais divulgado para fazermos as primeiras datas, mas em Novembro desse ano vamos fazer o lançamento do OXYMORO em alto estilo. A banda assume uma postura, vermelha de esquerda, e glam de contestação, sem violência física, mas sim dispondo idéias e possibilidades dentro desse mundo homofóbico do rock.
Conte como é a performance do grupo ao vivo: figurino, cenário, interatividade, etc.
O vermelho das nossas roupas é em homenagem aos New York Dolls (Red Patent Leather Tour - a fase "comunista" dos Dolls). Eu os assisti pela primeira vez, embasbacado, no programa Rock Concert na Globo nos anos 70, no show do Don Krischner no qual tocaram ao vivo. Eu pirei. O pequeno detalhe da roupa vermelha foi uma das causas do fim deles, mas passados 30 anos é um dos motivos do nosso nascimento, estético/musical. A estrela dourada que uso na roupa vermelha representa o Homem Vitruviano de Da Vinci; o PHI; o 1,618. O show é suor, entrega, volume, paixão, sutileza, espiritualidade, carnalidade, carnaval, igreja e ritual.
Como o público reage ao ver o grupo no palco?
As caras da platéia são curiosas. Às vezes parecem ter medo de mim, outras riem, amam ou se chocam. Nada é artificial, ou gratuito. Não estou nessa para agredir, mas para dar meu amor para quem estiver de braços abertos. Apresento um personagem, que toca uma música especial. Como isso não existe mais, então deve ser um choque mesmo. Ninguém sai impune de um show desses. Precisa ter coração e cérebro.
O set list das apresentações também conta com covers?
Não, mas nunca se sabe, dependendo da oportunidade. Tenho uma máxima antiga de não tocar covers, porque associei quem toca cover com alguém que tem um repertório próprio desinspirado ou com a falta de vontade de mostrar o próprio trabalho, com medo da reação alheia, ou pior, com a apatia alheia.
Vocês também lançaram um VHS com show ao vivo, vídeo clipe e entrevistas. Qual show é veiculado neste material e como tem sido a tiragem e aceitação?
De início seria um DVD lançado com todas as bandas que se apresentaram no 8º Goiânia Noise Festival em 2002, mas como o projeto não foi adiante e cada banda era detentora da gravação original do show, decidimos lançar em VHs por não termos, ainda, como editar em DVD. É o melhor festival de rock do país e, além disso, organizado pela gravadora e produtora Monstro, que lançou o CD OXYMORO. Encontrei muitas simpatias e afinidades em Goiânia. O resultado do show do Mustang feito com sangue, suor e coração (além das roupas vermelhas) foi um convite para ingressar no elenco do selo Monstro Discos. O VHS do Mustang surpreende quem espera que eu faça no palco algo parecido com o que fiz quase minha vida toda... É muito "pior". A minha entrega ao vivo é tanta que chego a me machucar e saio suado mesmo, não é de mentirinha não, é entrega de verdade.
E quais serão as próximas novidades do Mustang?
As mesmas de sempre: divulgar nossa forma de pensar e apresentar opções à obviedade.
A banda tem feito contatos no exterior ou ainda não pensaram nisso? Como anda a divulgação aqui no Brasil?
A divulgação está muito boa, temos os CDs distribuídos em todos os grandes magazines do país; entrevistas estão sendo publicadas nos mais diversos veículos e os convites estão surgindo. A banda está despertando um interesse muito grande por diversos motivos, e o maior deles é a coragem e claro, a qualidade. A gravadora queria editar o OXYMORO em inglês, mas eu fiz questão de lançá-lo em português, pois meu interesse é ser compreendido em nossa língua, expressar meus pontos de vista sobre a nossa sociedade para quem participa dela, e não para quem vive com a cabeça em Nova Iorque. Sou apaixonado por esse disco, que considero, honestamente, meu melhor trabalho. Não entendo nossa língua como de difícil assimilação ou brega. Assim posso falar com ironia e rir da minha própria cara. Para que pudéssemos entrar em um acordo, banda e selo, escolhi algumas faixas em inglês para que os correspondentes do estrangeiro e as gravadoras pudessem ouvir o trabalho, apesar de muitos "duplos sentidos" se perderem na tradução.
Valeuzão pela entrevista e pode deixar seu recado aos leitores do site.
Amo todos vocês.
* por Gisele Santos
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